“Talvez o amor seja como um local de descanso, um abrigo da tempestade…”
Em meio aos quatro cantos do mundo, fala-se muito a respeito do que o amor sempre representou na vida das pessoas. São colocadas em questão suas artimanhas, loucuras e tantos fascinantes mistérios envolvidos neste sentimento que, simplesmente, não precisa de qualquer explicação para existir… Uma mistura de sentimentos nos invade quando o amor resolve bater à nossa porta, sem que ao menos possamos nos dar conta do quanto a vida se modifica ao sermos tomados por seu embalo.
Há, em princípio, o encantamento… Aquela sensação que nos faz perder o fôlego apenas ao imaginar o desenho da pessoa amada em nossas mentes, idealizando cada momento futuro e construindo nossas projeções da maneira mais (in)fiel aos nossos corações. Sim, pois ao mesmo tempo em que o encantamento produz a mais clara certeza de se viver num pedacinho do paraíso, mostrando-se assim fiel ao coração, ele também traz um princípio de infidelidade à alma, uma vez que pode desvirtuar pouco a pouco o senso de percepção da realidade
Dessa forma, o próximo passo depende do cuidado para deixar o amor no lugar que lhe cabe em nossas vidas e, então, surgem dois caminhos a se seguir: a perversidade, que nasce a partir da desvirtuação de valores, ou a maturação, servida por uma boa dose de sensibilidade…
A perversidade pode ocorrer tanto diante do outro quanto perante a nós mesmos. Quando acontece de dentro para fora, de maneira quase incompreensível deixamos com que o outro fique seduzido e preso ao encantamento primeiro, embevecendo o seu mundo com atitudes e crenças as quais, por vezes, nem nós mesmos sabemos se são verdadeiramente reais.
Quantas vezes mentimos (in)conscientemente para sustentar algo que fortaleça nossa imagem perante o outro?
Em quantos e inúmeros instantes fazemos de nosso cerne algo fantástico e surreal, apenas para que a pessoa ao lado acredite em nosso teatro?
Eis uma das faces da perversidade, que pode levar muitas pessoas à loucura caso não tenham a estrutura emocional necessária para detectar seus emaranhados diante do outro.
Uma face drástica, porém real…
Dolorosa, porém reveladora…
O outro lado da perversidade se dá quando permitimos que nossa alma torne-se dependente deste processo aprisionador. Ocorre quando ficamos sem fala diante da sedução que o outro nos traz, gerando uma simbiose tão maléfica quanto o próprio ato de se praticar a perversidade. Causa dor, sofrimento, angústia, e todos os demais sentimentos que aparecem ao nos afastarmos daquilo que realmente somos, ao valorizarmos apenas aquilo que existe numa outra pessoa.
Em contrapartida, a maturação se dá quando se observa a importância de cada um ceder ao outro uma parte verdadeira de si, de modo a abdicar do superficial em prol de se oferecer valor ao que realmente faz a diferença numa relação. Nesse momento, as desavenças são minimizadas porque há um motivo maior para se sustentar os laços, que é o amor em si.
Este amor, sim, ultrapassa qualquer mal que a perversidade pode trazer e, dessa maneira, temos a possibilidade de enxergar o outro por aquilo que há em sua essência, sem nos preocuparmos com qualidades ou defeitos estereotipados. O que importa, nesse instante, não são as fantasias, e sim a mais pura expressão da realidade.
“E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer, a lembrança do amor vai te acompanhar até o fim…”
Superadas as fases angustiantes, talvez haja espaço para deixar o amor maduro entrar e ser consolidado, como um castelo que se constrói lentamente, mas que exige todo preparo, cautela e carinho.
Para se amar verdadeiramente, torna-se necessário esquecer que existem causas, condições ou finalidades para esse amor.
Deve-se saber amar, e ponto. Pois o ponto final sempre nos traz a lembrança das decisões mais trabalhosas, porém mais acertadas.
Para se manter o amor, é preciso ter a coragem de continuamente reconstruí-lo, entre encantamentos, perversidades esempre, sempre a esperança do recomeço.





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